Saber como fazer uma DRE é o que permite a qualquer empresa descobrir, com clareza, se a operação deu lucro ou prejuízo no período. Neste guia prático você encontra o passo a passo para fazer (ou elaborar) a DRE da sua empresa, o modelo da estrutura para preencher, um exemplo comentado e a leitura dos principais indicadores — o suficiente para montar e interpretar a sua própria Demonstração do Resultado do Exercício.
Para o conceito em profundidade, veja também o nosso guia sobre o que é DRE e sua estrutura completa.
Antes de começar: o que você precisa em mãos
A DRE é elaborada a partir da escrituração contábil, então reúna os dados do período antes de tudo: o faturamento total, os impostos sobre vendas, o custo do que foi vendido, as despesas operacionais, as receitas e despesas financeiras e a provisão de tributos sobre o lucro.
Vale uma observação que evita o erro mais comum: a DRE segue o regime de competência — as receitas e despesas são reconhecidas quando ocorrem, e não quando o dinheiro entra ou sai do caixa. Por isso o lucro apurado não se confunde com o saldo bancário do período.
Em resumo, fazer a DRE de uma empresa consiste em partir da receita e descer, linha a linha, até o lucro líquido. São oito etapas:
Esta é a sequência padronizada pela Lei 6.404/76 e pelo CPC 26. Use-a como modelo em branco — basta preencher os valores de cada conta.
| Linha | Como obter |
|---|---|
| RECEITA BRUTA DE VENDAS | Total das vendas de produtos e serviços, sem deduções |
| (−) Deduções da Receita | Devoluções, descontos incondicionais, ICMS, ISS, PIS e COFINS |
| (=) RECEITA LÍQUIDA | Receita Bruta menos as deduções |
| (−) CMV / CPV / CSP | Custo das mercadorias, produtos ou serviços vendidos |
| (=) LUCRO BRUTO | Receita Líquida menos o custo das vendas |
| (−) Despesas Operacionais | Administrativas, comerciais e gerais (inclui depreciação) |
| (=) RESULTADO OPERACIONAL (EBIT) | Lucro Bruto menos as despesas operacionais |
| (+/−) Resultado Financeiro | Receitas financeiras menos despesas financeiras |
| (=) RESULTADO ANTES DO IR/CSLL | EBIT mais ou menos o resultado financeiro |
| (−) Provisão para IR e CSLL | Tributos sobre o lucro, conforme o regime tributário |
| (=) LUCRO (OU PREJUÍZO) LÍQUIDO | Resultado final do exercício |
Receita Bruta. Todas as vendas de mercadorias, produtos e serviços no período, antes de qualquer dedução.
Deduções da Receita. Devoluções de vendas, descontos incondicionais e os impostos sobre vendas (ICMS, ISS, PIS, COFINS). São valores que nunca foram, de fato, receita da empresa.
CMV / CPV / CSP. O custo direto do que foi vendido. A sigla muda conforme a atividade: CMV (Custo das Mercadorias Vendidas) no comércio; CPV (Custo dos Produtos Vendidos) na indústria; CSP (Custo dos Serviços Prestados) em serviços. No comércio, calcula-se: Estoque Inicial + Compras − Estoque Final.
Despesas Operacionais. Gastos para manter a operação, não ligados diretamente ao produto: administrativas (aluguel, salários do administrativo), comerciais (comissões, marketing) e gerais (depreciação, seguros).
Resultado Financeiro. Receitas financeiras (juros recebidos, rendimentos de aplicações) menos despesas financeiras (juros pagos, tarifas bancárias), incluindo variação cambial.
IR e CSLL. Tributos sobre o lucro. No Lucro Real, o IRPJ é de 15% mais adicional de 10% sobre a parcela do lucro que exceder o limite legal, e a CSLL, 9% como regra geral — carga que pode chegar a 34% do lucro.
Veja a DRE da Empresa Exemplo Ltda., exercício encerrado em 31/12/2025 (valores em R$ mil). A coluna AV% é a análise vertical: cada linha como percentual da Receita Líquida, a base 100%.
| Descrição | 2025 | AV% |
|---|---|---|
| RECEITA BRUTA DE VENDAS | 1.200 | — |
| (−) Deduções da Receita | (200) | — |
| (=) RECEITA LÍQUIDA | 1.000 | 100% |
| (−) Custo das Mercadorias Vendidas | (550) | -55,0% |
| (=) LUCRO BRUTO | 450 | 45,0% |
| (−) Despesas Operacionais | (280) | -28,0% |
| (=) RESULTADO OPERACIONAL (EBIT) | 170 | 17,0% |
| (+) Receitas Financeiras | 15 | — |
| (−) Despesas Financeiras | (25) | — |
| (=) RESULTADO ANTES DO IR/CSLL | 160 | 16,0% |
| (−) Provisão para IR e CSLL | (54) | -5,4% |
| (=) LUCRO LÍQUIDO DO EXERCÍCIO | 106 | 10,6% |
Lendo o exemplo de cima para baixo: de R$ 1.200 mil vendidos, R$ 200 mil eram impostos e devoluções — nunca foram receita real. Sobram R$ 1.000 mil de Receita Líquida, a base de toda a análise. O custo das mercadorias consome R$ 550 mil (55% da receita), deixando R$ 450 mil de Lucro Bruto. As despesas para tocar o negócio levam mais R$ 280 mil, e chega-se a R$ 170 mil de resultado operacional — o quanto a atividade-fim gerou, antes de juros e impostos. O resultado financeiro tira R$ 10 mil líquidos (pagou-se mais juros do que se recebeu), e o IR/CSLL, mais R$ 54 mil. No fim, restam R$ 106 mil de lucro líquido, ou 10,6% de tudo o que foi vendido.
| Indicador | Fórmula | No exemplo |
|---|---|---|
| Margem Bruta | Lucro Bruto ÷ Receita Líquida × 100 | 45,0% |
| Margem Operacional | EBIT ÷ Receita Líquida × 100 | 17,0% |
| Margem Líquida | Lucro Líquido ÷ Receita Líquida × 100 | 10,6% |
| EBITDA | EBIT + Depreciação + Amortização | — |
Como ler cada um. A Margem Bruta (45%) mostra quanto sobra das vendas depois de pagar o custo do produto — mede a saúde da precificação e da negociação com fornecedores. A Margem Operacional (17%) revela a eficiência da operação em si, antes de efeitos financeiros e tributários; é a melhor medida da qualidade do negócio. A Margem Líquida (10,6%) é o que de fato sobra para os sócios ao final. O EBITDA aproxima a geração de caixa operacional, somando de volta a depreciação e a amortização, que reduzem o lucro mas não saíram do caixa no período.
Atenção a uma armadilha comum: lucro não é caixa. Uma empresa pode ter lucro na DRE e mesmo assim ficar sem dinheiro — por vender a prazo, manter estoques altos ou amortizar dívidas. Quem mostra o caixa é a DFC — Demonstração dos Fluxos de Caixa, e não a DRE.
| Tipo de empresa | DRE |
|---|---|
| Sociedade Anônima (S.A.) | Obrigatória (publicação com as demais demonstrações) |
| Sociedade Limitada (LTDA) | Obrigatória (Código Civil e NBC) |
| Lucro Real / Lucro Presumido | Obrigatória |
| Simples Nacional | Pode adotar contabilidade simplificada |
| MEI | Dispensado (apenas controle de receitas) |
Mesmo quando não obrigatória, fazer a DRE é altamente recomendado para qualquer empresa que queira controlar a lucratividade. O lucro líquido apurado é, ainda, a base para a distribuição de lucros aos sócios e compõe o Patrimônio Líquido no Balanço Patrimonial.
Comece pela Receita Bruta e subtraia as deduções para achar a Receita Líquida; deduza o custo das vendas para o Lucro Bruto; subtraia as despesas operacionais para o Resultado Operacional; ajuste o resultado financeiro; provisione IR e CSLL; e chegue ao Lucro Líquido. Por fim, calcule as margens para interpretar o desempenho.
Basta reproduzir a estrutura vertical em uma planilha e usar fórmulas para os subtotais (Receita Líquida, Lucro Bruto, EBIT e Lucro Líquido). Assim, ao alterar qualquer valor, os resultados e as margens se recalculam automaticamente.
Sim. Micro e pequenas empresas podem usar uma versão enxuta, mantendo a sequência essencial: Receita Líquida, custos, Lucro Bruto, despesas, resultado e Lucro Líquido. O modelo apresentado neste guia atende tanto ao uso simples quanto ao mais detalhado.
A DRE apura o resultado de um período (receitas menos custos e despesas, chegando ao lucro ou prejuízo). O Balanço Patrimonial retrata a posição em uma data (bens, direitos e obrigações). O lucro da DRE alimenta o Patrimônio Líquido do Balanço.
No mínimo uma vez por ano, ao fim do exercício social. Para gestão, porém, o ideal é elaborá-la mensal ou trimestralmente — o acompanhamento frequente revela problemas e oportunidades com mais rapidez.
Este conteúdo é de caráter informativo e reflete a legislação vigente em 2026. Não substitui a orientação de um contador, indispensável para garantir a precisão dos números e o enquadramento tributário adequado da sua empresa.